O dia amanhece com o cheiro de tinta ainda fresca e serragem fina sobre o piso de madeira clara. Heleninha Roitman atravessa o salão da nova galeria com passos contidos, quase reverentes, como se temesse acordar um sonho que, de tão grande, pudesse se desfazer ao primeiro toque. No alto, trilhos discretos de luz apontam para telas encostadas nas paredes — paisagens fragmentadas, retratos em que as pupilas guardam pequenas tempestades, naturezas-mortas que parecem respirar.
Ela para diante de um quadro maior, recém-fixado: "Ausência", um oceano em tinta azul-marinha, cortado por um clarão branco que lembra um coração pulsando de saudade. A mão de Heleninha treme apenas o suficiente para que ela mesma perceba. Respira fundo. Sorri. É noite de inauguração.
Renato, o aliado recente que se tornou porto seguro, surge com caixas de folhetos dobrados, o cabelo desalinhado pelo vento da manhã.
— "Dormiu?" — ele pergunta com aquele humor gentil, já sabendo a resposta.
— "Pelo avesso. Mas eu queria sentir cada minuto." — ela diz, ajeitando de leve o vestido simples, de algodão cru. — "Se um dia eu esquecesse como foi difícil, perderia metade do sentido de abrir estas portas.
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